Os revivalismos das décadas de 80 estão na moda. Outra banda a comprová-lo são os norte-americanos Scissor Sisters. Após o mentor da banda, Elton John, “deitar para o lixo” o terceiro álbum do grupo, “Filthy/Gorgeous”, o quarteto decidiu gravar um novo álbum para substituir o mal amado da estrela britânica.

O resultado foi “Night Work”, um disco que surpreende pouco, um registo que serve apenas para reafirmar uma vertente que os Scissor Sisters já tinham: a música electrónica. Sem grandes novidades, o “trabalho nocturno” da banda merece ser ouvido, principalmente para nos recordar uma época dourada na história da música, embora muitas vezes mal amada.
Os anos 80 são uma constante durante o disco todo, que, pela forma como as músicas se interligam na perfeição, nos fazem imaginar noites passadas nos clubes nocturnos mais badalados de Nova York. Sex and Violence, uma das melhores músicas do álbum, retrata esse ambiente na perfeição. Através da música electrónica misturada com o disco, este tema demonstra o quão dançável é este registo.
Night Life tem um nome que retrata na perfeição a canção. Nesta faixa encontra-se um pouco de influência de temas como Relax (Don’t Do It) dos Frankie Goes To Hollywood e True Faith dos New Order. Este último grupo foi, também, fonte de inspiração na música Running Out.
A música electrónica continua presente em temas como Invisible Light, que conta com uma passagem de spoken word feita pelo actor Ian Mckellen, que deu vida à personagem Gandalf na trilogia de O Senhor dos Anéis. O não menos dançável Shin This Cat transforma Ana Matronic numa Madonna jovem e sexy. Aliás, o produtor álbum “Confessions On A Dance Floor”, da rainha da pop também produziu este disco dos Scissor Sisters.
Durante o álbum todo, Jake Shears vai utilizando o seu elemento camaleónico, a voz, como forma de se adaptar a cada música. Por vezes a relembrar Gary Numan, outras vezes idêntica aos Bee Gees. O que é certo é que Jake tem de perceber que os registos mais agudos são os que lhe assentam melhor, não podendo usar a voz da forma como o faz em Fire With Fire. Já Ana Matronic pode dar-se ao luxo de utilizar a sua voz em tons diferentes, como o faz, e bem, no tema Any Wich Way.

Além da voz inadequada de Jake Shears, Fire With Fire é uma música demasiado comercial como o tema Skin Tight que se assemelham a canções dos The Killers, como, por exemplo, a irritante Are We Human. Escolher esta canção como single de “Night Work” não foi a decisão mais acertada, até porque qualquer uma das músicas deste álbum, sem contar com a insignificante Something Like This, tem perfil para serem lançadas como single.
Whole New Way é uma das músicas que desculpa esta triste influência da banda de Brandon Flowers, num grupo tão promissor como os Scissor Sisters. Esta canção é uma espécie de regresso às origens, apresentando uma melodia idêntica à de Laura, contudo, numa onda mais disco.
A novidade deste trabalho reside em temas como aquele que dá nome ao disco. Em Night Work, Del Marqui dá asas à sua guitarra eléctrica que confere uma onda rock n’ roll que, ao juntar forças com os sintetizadores e a batida boogie, cria um estilo disco-electro-rock.
As guitarradas voltam a entrar em cena com música Harder You Get, provavelmente inspirada na canção Heaven’s Fire dos Kiss, uma vez que ambas têm a mesma sonoridade e cadência, sendo a dos Scissor Sisters menos ritmada.
De facto, “Night Work” traz novidades e sonoridades diferentes. No entanto, de uma banda tão travestida como os Scissor Sisters e de uma capa de álbum tão marcante, graças às nádegas do bailarino clássico Peter Reed, esperava-se algo mais irreverente. É, sem dúvida, um álbum mais dançável, mas o facto de não conter uma única balada, obriga-nos a suspirar por um regresso de Mary.

Podemos bater o pé, abanar a cabeça e cantar os refrões, mas um verdadeiro fã do conceito que os Scissor Sisters criaram vai sempre suspirar para que tudo o que a banda tem de grotesco, chocante e inovador, volte ao de cima. Talvez no próximo álbum ou quando os Scissor Sisters decidirem “deitar o Elton John ao lixo”.