Sobre ela, Caetano Veloso, disse ser o futuro da Música Popular Brasileira. Mas se há coisa de que não gosta é de rótulos. A sua música tem influências de vários países, estilos, sonoridades. Trata-se de Céu, uma das mais recentes revelações musicais oriundas do Brasil. Passou uns tempos nos Estados Unidos, onde a sua música é reconhecida e acarinhada. O primeiro CD, homónimo, data de 2005 e o mais recente, “Vagarosa”, é do ano passado.

Palco Principal - As raízes familiares que tem nas artes foram um forte impulso na sua carreira?
Céu – Foi muito importante porque me deu apoio e referências muito boas, por isso considero-me uma pessoa de sorte, que cresceu a ouvir chorinhos, cirandas,... e artistas como Nelson Cavaquinho, Pixinguinha. Para mim, foi muito bom.
PP – Que tipo de formação musical tem? Teve aulas, aprendeu em casa, é uma autodidacta?
Céu – É uma mistura de tudo. Acho que aprendi o principal em casa mas também fui atrás de coisas que tivessem a ver com a minha personalidade. Então, encantei-me muito com o Afro Bit, com a junção da música brasileira com a música africana, com o jazz. Acho que a minha música é uma mistura dessas influências.
PP – E pode-se enquadrar no âmbito da world music?
Céu – Eu acho esse rótulo muito difícil no sentido em que, no Brasil, Serge Gainsbourg está na world music. Eu sou uma pessoa que não entende muito bem os rótulos na música porque para mim a música é livre. Não sei dizer se me encaixo na world music ou não.
PP– A ida para os Estados Unidos e a estadia por lá foi uma fuga ou a procura de algo novo?
Céu – Eu tinha 18 anos e tinha uma tia a morar em Nova Iorque. Encantei-me com Nova Iorque muito pela mistura de cultura, pela cidade e também sempre tive muito interesse na escola vocal do jazz, então eu queria aprender um pouquinho disso.
PP – Quais as diferenças que mais sente entre o mercado musical norte-americano, o brasileiro e o europeu?
Céu – Eu acho que são três mercados bem diferentes. O americano é muito fechado para a língua não inglesa e muito dinâmico. Pede coisas o tempo inteiro, são lançados milhões de artistas com muito apelo popular, portanto é difícil. É um mercado muito fechado. No caso do brasileiro, também não é fácil, no sentido em que também tem muita coisa, é um país muito grande e é difícil ter acesso a todas as classes. A gente é muito apoiada nas músicas que entram nas novelas da Globo. Então é complicado mas, enfim, é o meu país e também tem uma certa parcela de pessoas que entendem melhor a música. O [mercado] europeu é bem aberto à música brasileira. É um mercado bem interessado. Eu acho que em todos os países notei uma grande receptividade para com a música brasileira.

PP – Mas apesar das dificuldades que o mercado norte-americano cria, a Céu conseguiu assegurar o seu espaço lá. Como é que isso aconteceu?
Céu – Estávamos na era Bush e eu acho que o americano estava a olhar um pouquinho para fora do país, com um pouco mais de interesse nas coisas. A Starbucks, com quem eu fiz parceria no primeiro disco, distribuiu o álbum, o que também foi crucial para que os americanos pudessem entender e interessar-se pela minha música. E acho que tem um toque exótico para eles a coisa do Brasil, eles têm esse interesse. Não é à toa que a Bossa Nova estourou lá. Então, eu não sei dizer ao certo por que é que eles se interessaram mas acho que foi uma junção de coisas.
PP – E o facto de ter tido esse sucesso todo no estrangeiro deu-lhe ainda mais visibilidade no Brasil?
Céu – Acho que sim. Eu sou conhecida no Brasil tal e qual sou conhecida aqui [na Europa]. É parecido. Não é uma coisa enorme. É uma coisa de um tamanho específico. É que o Brasil é muito grande e o que é muito conhecido lá, de facto, fica gigante. É bem parecida a relação. Agora, se ter feito shows aqui reverberou bem no Brasil? Reverberou muito bem. Ajudou-me muito na minha carreira lá.
PP – Entre os dois álbuns manteve uma grande homogeneidade. Significa que logo no primeiro trabalho encontrou a sonoridade que desejava?
Céu – Sim, acho que sim. O primeiro álbum é um álbum em que estás mais em fase de experimentação e a procurar aonde se quer chegar. O segundo [álbum] afirma bastante quem se é, sim.
PP – São várias as parcerias que já fez com diversos artistas de todo o mundo. Alguma que queira destacar?
Céu – Bem, acho que a parceria com Herbie Hancock foi a mais emocionante para mim porque sou aficionada por jazz e tinha, desde pequenina, um poster enorme dele no meu quarto. Nunca imaginei que um dia ia tocar com ele. Então, para mim, foi muito, muito especial.
PP – Uma vez disse que as suas “letras são o resultado de uma espécie de diário pessoal”. Significa que escreve sobre as experiências que tem e o que lhe acontece no dia-a-dia?
Céu – Eu acho que tem muito de mim nas minhas letras. Na verdade, tem 100% de mim mas às vezes não são necessariamente histórias que eu vivo. Às vezes são histórias que imagino, que criei, que vi de alguém, de algum amigo. Mas basicamente é alguma coisa que vem de dentro de mim. E eu acho que o que mais me inspira é o quotidiano, é a vida mesmo, as coisas do dia-a-dia. E eu acho que essa simplicidade desse dia-a-dia é extremamente complexa.
PP – E como é que se processa a criação da parte musical?
Céu –Geralmente, tenho uma ideia melódica antes da letra e gravo. Depois procuro a harmonia no piano e ai começo a escrever as letras.
PP – Considera as redes sociais um importante veículo de divulgação da música?
Céu – É, hoje em dia a gente vive esse momento. Eu acho muito importante, principalmente para as pessoas que não tinham possibilidades, que eram muito pequenas, para artistas independentes. Hoje em dia está muito fácil entrar no jogo, na máquina da música. Basta ter um computador, ter uma mini-produção, que já pode divulgar o trabalho porque as redes de distribuição estão muito fáceis. Tem como mostrar a sua música na China, na Europa, no Brasil. Então, eu considero isso uma grande, grande oportunidade. Ainda há alguma confusão no sentido de “o que é que vai acontecer” porque acho que este é um momento transitório. Mas eu sou muito, muito a favor.
PP – Quais são os projectos para o futuro? Algum disco previsto para os próximos tempos?
Céu – Bom, para mim ainda é um pouco cedo. Eu finalizei o “Vagarosa” há um ano. Mas eu sei que no mercado actual tem de ser tudo muito rápido, então eu vou fazer. Eu respeito muito um relógio interno, o meu. Tenho de ter histórias para contar e tem de fazer sentido lançar um disco novo. Imagino que, para o ano que vem, eu devo começar a fazer um novo [disco] mas ainda não tenho nada em mente.